Publicado em: 20/02/2008 Autor: Thiane Loureiro

Campus Party foi um evento e tanto! Desses que colocam o Brasil no radar dos grandes nomes da Web. Fiz parte do grupo de discussão da comissão organizadora do Campus Blog e acompanhei os esforços feitos por gente como Lucia Freitas, Daniela Silva, Pedro Markun, Juliano Spyer e Sergio Amadeu para organizar workshops, palestras, debates e trazer nomes como Steve Johnson. Que experiência incrível ter visto tudo acontecer com um pezinho (só um pezinho mesmo) nos bastidores. Êxtase saber que o evento está garantido até 2013.
Foto retirada do site do Campus Party
Mas não dá pra falar de Campus Party e não comentar as polêmicas envolvendo jornalistas, blogueiros, posts pagos e empresas. Observei as pessoas se inflamarem, li e reli vários blogs, ouvi comentários nos corredores da Bienal, fiz algumas colocações também, mas deixei a poeira abaixar. Espero agora poder adicionar algumas visões novas ao que já foi dito, especialmente com base no que eu mesma vivi como convidada do debate sobre blogs corporativos, na última sexta-feira.

Foto do aquário da imprensa retirada do Flickr do Marco Gomes
Jornalistas e blogueiros têm insistido em desempenhar os mesmos papéis e ficam tentando descer goela abaixo um do outro. As acusações foram pesadas. Blogueiros dizem que jornalistas são “idiotas” e não checam suas matérias. Jornalistas afirmam que blogueiros não têm credibilidade e profundidade no que escrevem.
E aí? Blogs têm mais credibilidade que jornais? Jornais são mais confiáveis que blogs? Jornais fabricam notícias? Blogueiros pagos não têm isenção? Quem disse? Quem pode provar? E queremos ter credibilidade enquanto acusamos uns aos outros sem qualquer bom senso? Mais uma vez repito: temos que mudar a mentalidade. Ou não adianta nada abraçarmos as “novas mídias” com pensamentos tradicionais e “tiranossáuricos”. Temos muito que aprender e repensar.
Existe espaço pra todo mundo. Jornalistas e blogueiros são complementares e não excludentes. Blogs linkam jornais e jornais podem linkar blogs, que são muito mais opinativos e desprendidos do factual, da notícia “quente”. Juntos, blogueiros e jornalistas podem encontrar meios de levar mais informações de qualidade para as pessoas. Agora, quem disse que blogs precisam necessariamente ser noticiosos? Será que estamos criando uma visão viciada da blogosfera?
Foto do aquário da imprensa retirada do Flickr do Manoel Netto
O que me leva a dizer que blogs não são tudo na Web. No debate de sexta-feira foi bastante difícil esconder a minha cara de indignação com algumas das coisas que ouvi. Blogueiros corporativos distribuindo “business cards” e falando mal das empresas que os contrataram, acusando corporações de dizer “meias verdades” e de não saber o que estão fazendo. Agências afirmando categoricamente que posts pagos são o “mensalão da blogosfera”. De novo, farpas indiscriminadas.
E volto ao meu discurso do debate de sexta-feira. Empresas são ambientes complexos que levaram anos pra que seus nomes fossem reconhecidos, que precisam fazer com que milhares de funcionários representem suas marcas e produtos de forma consistente e alinhada. São avessas a riscos. Qualquer deslize pode representar prejuízos homéricos e riscar da folha centenas de empregos. Além disso, há décadas, às vezes séculos, tomam decisões a portas fechadas, com medo da concorrência, tentando vencer em mercados cruelmente competitivos.
E aí veio a Web pra dizer que tudo isso precisa mudar. Que funcionários e consumidores devem participar e que é preciso ceder o controle em troca de credibilidade. De novo estamos falando de mudanças muito profundas. E que levam tempo. Por isso mesmo blogs deveriam ser feitos com mais cuidado.
Blogs são ferramentas de relacionamento, mas também veículos de informação. Da mesma forma que empresas não podem sair por aí falando qualquer coisa na imprensa,na newsletter, no mural ou no balanço anual,não podem deixar que seus blogs não tenham um mínimo de alinhamento estratégico. Nem que blogueiros se tornem porta-vozes oficiais sem qualquer preparo para isso.
Blogs precisam de gerenciamento. Blogs são, acima de tudo, instrumentos de reputação. Não é toda empresa que está pronta pra ter um blog. E não há qualquer problema nisso. Blogs “telemarketing”, que só existem quando a empresa quer vender alguma coisa ou fazer branding, raramente atingem as pessoas certas, raramente criam conversação com quem realmente precisa participar. Blogs dão trabalho. Blogs não são publicidade barata.

Fotos da palestra A Corporação Transparente retiradas do Flickr do Manoel Netto.
Aí só me resta elucubrar sobre blogueiros contratados, posts pagos, etc. Imagine que você acabou de contratar um pintor pra sua casa. Você está pagando e espera que as paredes sejam todas brancas, que ele não suje o chão nem manche os batentes das portas. Epa, nada disso. Você agora precisa contratar o pintor, pagar e deixar que ele faça o que quiser na sua casa. Se as paredes estiverem pink quando você voltar, não reclame. É liberdade de expressão. E aí? Como você pretende lidar com isso? Pois assim são, teoricamente, os blogueiros ou posts pagos. Como pintores que você contrata pra fazer o que quiserem.
Blogueiros podem, sim, ser pagos. Depende de como e pra que. Depende de quanto. Depende de qual é o objetivo daquele blog. Depende do que escrevem. Depende do quanto blogueiro quer virar “prestador de serviço” e do quanto a empresa está preparada pra dar liberdade ao “fornecedor”. Tudo depende. O foco está, mais uma vez, na reputação. Mas pra que essa relação dê certo de novo são necessárias mudanças que ainda não aconteceram.
O Café com Blog, promovido pela revista BITES, é uma iniciativa que visa permitir discussões construtivas sobre a Web e a blogosfera. Que tal fazermos mais? Que tal criarmos um comitê oficial, convidar entidades, agências de comunicação, acadêmicos, jornalistas, blogueiros? Criar melhores práticas, condutas, evoluir. Vamos?
Outras reflexões bacanas:
Thiane
Categorias: Blogosfera, Eventos, Tecnologia.
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Thiane,
Você como sempre, com um texto muito lúcido. É exatamente isso!
Menos ativismo e mais atividade, pessoal.
Vamos! Eu topo.
O link pro meu post está apontando pro blog do Campus Party ![]()
Ops! Pronto, agora o link está correto Edney.
bjs
Você não acha que rola uma certa “inveja” dos profissionais no sentido da liberdade que o blogueiro tem e eles não? E o que foi aquele isolamento da mídia “tradicional” durante o evento? Como é que se pode querer união com aquela separação? Essa questão passa muito pela obrigatoriedade do diploma no exercício da profissão. Como é que esses “malucos” podem escrever o que querem, muitas vezes, sem responsabilidade? Passa ou não passa por aí? Parabéns pelo post.
Muito bom o texto Thiane, é preciso que usemos os canais de comunicação, principalmente os novos com planejamento e controle. Fazer um blog corporativo apenas para estar na moda, será formar outra bolha que logo se estourará na internet. Blog tem sim, um papel importante e deve ser cuidado como tal.Apoio a iniciativa de mais Café com Blog! De preferência com transmissão simultânea, para nó sdo interior.
Abraços…
Oi Luiz, não acho que seja inveja. Acho que é complicado mesmo haver essa quebra de paradigma. Jornalistas sempre detiveram o controle da informação. Agora é informação é de todos. Mas de novo insisto que jornalistas têm obrigações diferentes de blogueiros. Por isso eles podem se complementar. Quanto ao aquário, jornalistas têm deadlines, blogueiros não. Ter um lugar mais “quieto” para organizar os materiais e as idéias é bastante útil. E muitas vezes eles usam a sala de imprensa para entrevistas (até por telefone) por isso a necessidade de um espaço reservado. Talvez tenha sido ruim colocá-los ali como “bichos na gaiola e em exposição”. De qq forma, essa convivência poderia ter sido mais tolerável. Ambos podem se respeitar, “cada um com seu cada qual”. Beijos
Thiane,
Obrigado pelo comentário no meu blog.
Acabei de postar uma resposta lá no http://www.tavoladigital.com.br/webstage/?p=24
Abs
Mas é isso mesmo. Blogs podem falar de qq coisa, Alexandre, mas nessa discussão parece que blogs precisam ser como agências de notícias. bjs e obrigada pela visita.
Márcia, vc é sempre uma querida. Bjs
Thiane, confesso que me segurei muito para não dar meus pitacos sobre essa, lembro, discussão ridícula entre jornalistas e blogueiros.
Respeito muitos deles pela qualidade dos textos, criatividade, esforço para auxiliar esse mercado a se desenvolver.
Mas fiquei pasmo com a atitude de vários blogueiros vociferando contra a mídia tradicional quando sei - porque acompanho diariamente - que boa parte deles nada mais faz do que replicar noticiário local ou global e não apresentam nada de opinativo, que deveria ser o grande lance de blogs.
Vi, inclusive, blogueiros ditos “famosos” criticando em demasia a mídia considerada tradicional e logo em seguida cometendo erros tão grotescos quanto os jornalistas. “Berrando” em seus blogs por conta do bloqueio a alguns sites no Campus Party sem checar a causa. Saíram dizendo que era censura quando na verdade não era. Enfim, vamos pular essa parte que me irrita muito, até porque estou dos dois lados.
Em relação aos blogs corporativos, estamos anos luz de coisas interessantes. Cite-me, no Brasil, um blog de sucesso - sei que é difícil definir sucesso - e com uma audiência interessante (não grande, porque ele pode muito bem atingir nichos extremamente ligados ao negócio da empresa)? Com certeza pensará bastante para chegar a uma boa resposta.
Mesmo quando tratamos de blogs que poderiam ser noticiosos. Se você sair da esfera política e econômica, com blogs de jornalistas da mídia tradicional que apenas colocam suas visões em um novo formato (a web, o blog), vai ter dificuldade de encontrar coisa boa.
O que pontuo na questão da estratégia de comunicação é o fato de que as pessoas que precisam ser realmente atingidas por esses conceitos não estão nem sentido cócegas. Como disse no meu post no blog, não dá para dizer que o marketing (geralmente ele) não esteja atento. Mas na maioria dos casos está negociando budget para conseguir pagar a assessoria. Eu gosto de comparar essa visão do marketing com o relacionamento com o cliente. O Código de Defesa do Consumidor existe faz mais de 10 anos e as empresas ainda estão aprendendo a lidar com ele - e sejamos sinceros, muitas delas não querem se preocupar com isso, com cliente reclamando no call center, escrevendo cartas para o jornal ou se queixando no Procon.
Com a web - blogs, comunidades, redes sociais - é a mesma coisa. Os caras não vão perder tempo com isso agora, não querem, dá trabalho. Casos como aquele do blog Engadget, em que uma gigante de tecnologia chegou a perder milhões na bolsa por conta de um boato falso, ainda vão levar muitos anos para chegar no Brasil.
As empresas - e seus comandantes - ainda têm uma visão arcaica disso tudo. Enfim, é papo pra mais de hora. Já escrevi quase uma tese aqui. Vamos marcar e passo na Edelman pra conversarmos mais.
Abraço e valeu pelo comentário no Pérolas!
Adorei Edu. E é verdade, a maioria ainda nem sabe o que isso significa. Vamos marcar o tal papo sim. Beijos
Oi, Thiane.
Parabéns pela imparcialidade na análise.
Uma das coisas que vem me chamando a atenção, nesse caso, é a forma emotiva com que as pessoas vêm apresentando seus pontos de vista. A maioria tem aproveitado para “sentar o pau” na imprensa, especialmente os blogueiros. Outra coisa foi a reação dura e imediata da grande imprensa no Brasil, evidenciando que as novas mídias ainda são um terreno desconhecido para os jornalistas. O maior valor que este caso vem trazendo é o debate, além, obviamente, de ter perturbado o “sistema”. Só espero que as empresas não se assustem com toda essa repercussão polêmica em cima do blog da Petrobras. Afinal de contas, em pouco tempo, todas as empresas terão blogs internos e externos como uma ferramenta poderosa de comunicação e colaboração corporativa. É um caminho sem volta, quem sair na frente vai colher os frutos primeiro. Abraços. Mauro Segura.
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